10 de mar de 2012

Filósofa grega é retratada no filme “Alexandria”, de Alejandro Amenábar


Maria Rita Medeiros Fontes*

O filme relata a história de Hipátia, filósofa e professora da escola de Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415 da nossa era.
Única personagem feminina do filme, Hipátia dá aulas de filosofia, matemática e astronomia na escola nascida ao lado da famosa biblioteca criada por Alexandre Magno – O Grande. Seu pai, Theon, é o diretor da academia e o mentor da filósofa.
A cultura disseminada em Alexandria se deu à partir da combinação de fatos que  vão desde a estruturação da Biblioteca que acolheu quase todo conhecimento até então produzido ao mesmo tempo que atraiu os principais estudiosos da época juntamente com  alunos ávidos por novas descobertas transformando a cidade egípcia em um grande centro de estudos acadêmicos.
Após a conquista de Alexandria pelos Romanos, a cidade passa por constantes agitações provenientes de diversas orientações religiosas: a tradição dos judeus e do politeísmo helênico-romano se encontra com a efervescência do cristianismo, que passou de religião intolerada para intolerante, após a institucionalização da religião Cristã pelo Império Romano.
Dentre os alunos de Hipátia, destacam-se Orestes, que a ama sem ser correspondido, e Sinésio, adepto do cristianismo. Há também o escravo Davus, que ama, secretamente, a filósofa. Entretanto, Hipátia não deseja se casar, mas se dedicar à Ciência e à Filosofia. O filme retrata sua paixão pelo estudo e sua incansável procura por respostas sobre o movimento da terra em torno do sol.
Em uma época de conflitos sobre a fé, ficam evidentes os vários enfrentamentos entre cristãos, judeus e a cultura greco-romana. Aos poucos os cristãos se apoderam da situação e passam a provocar conflitos entre os cidadãos.
Orestes se torna prefeito de Alexandria permanecendo fiel ao seu amor por Hipátia, com quem mantém constantes discussões filosóficas. O escravo Davus, que teve sua liberdade concedida por Hipátia, se debate entre a fé cristã e a paixão por sua antiga proprietária. O líder cristão Cirilo passa a dominar a cidade, mobilizando ordas de monges que atuam como protetores do dogmatismo católico do início do cristianismo. Estes encontram na ligação entre Orestes e Hipátia o ponto de fragilidade do poder romano, iniciando uma campanha de enfraquecimento da influência de Hipátia sobre o prefeito, usando as escrituras sagradas para acusá-la de ateísmo e de comportamento inadequado para uma mulher.
Além de narrar a vida e a morte de Hipátia, o filme mostra os conflitos que se seguiram entre os que professavam a nova religião cristã,  o judaísmo e o politeísmo Greco-romano.
O conflito central se refere à atitude independente da filósofa, condenada pelo cristianismo por confrontar com seu comportamento o papel de subordinação pregado para as mulheres. Por ter se recusado a se converter ao cristianismo e por não se comportar como era esperado para uma mulher, Hipátia foi acusada de ateísmo e condenada sem julgamento.
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* Maria Rita Medeiros Fontes é filósofa, mestranda em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás, e atualmente trabalha como Gerente de Projetos e Interiorização das Ações, da Secretaria de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial.




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O filme "Alexandria", será exibido nessa quinta-feira 08/03, às 19h, na sexta-feira (09/03), às 15h e no sábado 10/03 (sessões 12h30, 15h e 19h), no Goiânia Cine Ouropela Semira Mostra Mulheres no Cinema (ingressos: R$1).

9 de mar de 2012

“As horas”: os últimos suspiros do Anjo da Casa


*Luana Borges (especialmente para o blog)

“Era a morte. Eu escolhi a vida”, são essas as palavras de Laura Brown – personagem do filme "As horas", de Stephen Daldry – ao justificar porque abandonou, nos anos de 1940, o marido, os dois filhos pequenos e uma casa abastada em um bairro tranqüilo de Los Angeles.

“Você acha que algum dia vou me libertar?”, essa também é uma fala do filme, dita pela personagem que representa a escritora Virginia Woolf.  No longa, a autora é retratada nos anos de 1920, período em que se exilava em um subúrbio de Londres. A essa época, lutando contra a insanidade, ela concentra esforços à escritura de seu grande romance: Miss Dalloway.

O filme “As horas” traz então uma versão moderna para a Senhora Dalloway de Woolf, encarnada na personagem Clarissa Vaughan.  Ela é uma editora que, assim como a protagonista do romance, tem um único dia de sua história narrado: 24 horas que resumem as sensações de uma vida inteira e que carregam um desfecho surpreendente.  Na jornada, que se passa em 2001, ocorrem os preparativos para uma festa. Nesse dia, a anfitriã Clarissa – que se esconde sob o manto da autoconfiança, assim como Miss Dalloway – tristemente dirá: “parece que estou me dissolvendo”.  




As vidas dessas mulheres – a escritora Virginia Woolf nos anos 20, a dona de casa Laura Brown nos anos 40 e a editora Clarissa Vaughan nos dias de hoje – se entrelaçam no filme de Stephen Daldry. Inspirado em “Miss Dalloway" e baseado no romance "As horas", de Michael Cunninghan, o diretor mostra as sensações de suas heroínas em uma narrativa altamente psicológica. Nela se fundem, a partir de cortes temporais, três épocas diferentes e três mulheres distintas.  Mas essas personagens têm em comum alguns pontos: o sentimento de clausura e a necessidade de matar certo espírito compassivo e profundamente abnegado que rondava suas vidas.

A escritora Virginia Woolf – aqui se fala da personagem real e não da figura fílmica – vai explicar em um discurso, proferido em janeiro de 1931 para a Sociedade de Mulheres Trabalhadoras da Inglaterra, o que entende sobre este espírito terno e adulador:

“O fantasma era uma mulher e quando vim a conhecê-la melhor eu comecei a chamá-la como a heroína de um famoso poema, o Anjo da Casa. E quando vim a escrever encontrei com ela bem nas primeiras palavras. A sombra de suas asas caiu sobre a página; eu ouvi no quarto o roçar de suas saias. Ela deslizou por trás de mim e sussurrou: ‘minha querida, você é uma moça. Você está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja complacente, seja terna, adule, iluda, use todas as artes e truques de seu sexo. Nunca deixe ninguém supor que você tem uma vontade própria. Antes de tudo, seja pura’. Eu me voltei contra ela e agarrei-a pelo pescoço. Fiz o possível para matá-la. Minha alegação, se fosse levada a julgamento, seria a de que agi em legítima defesa. Se eu não a tivesse matado, ela teria me matado. Ela teria arrancado o coração de meu texto. Matar o Anjo da Casa era parte das tarefas de uma escritora”.

No filme “As horas”, diferentes mulheres – dentre elas a própria Woolf – conseguiram matar o Anjo da Casa em períodos vários da história. São espectros complacentes que, à época de Virginia, diziam aos sujeitos femininos que eles jamais poderiam agir em prol de suas próprias vontades, pois, antes, deveriam sacrificar-se, apartando-se, em prol dos seus: marido, filhos, família. Sob essa óptica, as mulheres deveriam se camuflar nos seus e, nunca, poderiam ter um posicionamento aguerrido – e próprio – na esfera pública. Debatiam-se assim, infelizes, no apartheid de seus lares. De acordo com a metáfora afiada de Woolf, esses espíritos representem a anulação feminina. São os rastros deles que influenciam de forma decisiva no final surpreendente em "As horas". Uma película delicada e reveladora. Nela, a força de três mulheres, três gerações, na tentativa de seguir os próprios destinos.

*Luana Borges é jornalista e mestranda em Literatura pela Universidade Federal de Goiás.




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O filme "As horas", será exibido nessa sexta-feira (09/03) às 19 horas,
no Goiânia Cine Ouro (ingressos: R$1), pela Semira Mostra Mulheres no Cinema.


8 de mar de 2012

Pollyanna Marques comenta o filme “Desejo Proibido”




Um filme que te leva a emoções extremas passando pela dor, indignação, tesão e alegria...”Desejo Proibido” (If The Walls Could Talk 2), nos relata três histórias de relacionamentos lésbicos, em uma mesma casa, em tempos históricos diferentes, o que nos leva a uma diversidade de personagens e situações. Choramos com Edith (Vanessa Redgrave ) a perda da companheira de uma vida toda.


Nos apaixonamos com Linda (Michelle Williams), feminista que é expulsa do grupo de mulheres que ajudou a criar e torcemos junto com Fran e Kal (Sharon Stone e Fran Ellen DeGeneres) que querem um bebê.

As histórias são emocionantes e fluem com uma naturalidade maravilhosa, tem personagens marcantes e atuações muito boas. Merece um destaque especial as cenas mostradas no início e na transição das histórias, cenas de momentos reais de caminhadas e protestos.



Para além de outras coisas, esse foi o primeiro filme explicitamente lésbico que assisti, junto a uma avalanche de emoções. O revi várias outras vezes e nestas voltei a sentir a sensação gostosa e orgulhosa de ser lésbica e desfrutar dos meus amores e minhas histórias...


Pollyana Marques é ativista do Grupo Colcha de Retalhos, Servidora Pública e graduanda em Letras na UFG.

7 de mar de 2012

"Desejo proibido": uma casa, três histórias, três momentos históricos de luta e superação de casais lésbicos




Protagonizado por Vanessa Redgrave, Paul Giamatti, Choe Sevigny, Michele Willians, Sharon Stone e Regina King, discute por meio de três histórias de vida, as dificuldades enfrentadas por lésbicas em épocas diferentes, mostrando assim a luta dessas mulheres, que ainda hoje enfrentam a dor e o preconceito em uma sociedade predominante machista e heteronormativa.


No artigo “Cinema e Sexualidade”, a professora Guacira Lopes Louro faz uma análise desse filme:

Desejo Proibido (If These Walls Could Talk 2, 2000) lida com questões significativas para o movimento lésbico. O filme é constituído por três histórias curtas de mulheres que vivem numa mesma casa em diferentes épocas (1961, 1972 e 2000). As cenas de abertura já sinalizam a ótica do filme, na medida em que apresentam, numa espécie de colagem, imagens de mulheres em situações “tradicionais” (dona-de-casa, esposa atenciosa, miss, etc.) e imagens de marchas feministas e do movimento lésbico.


O primeiro segmento enfoca duas companheiras que vivem juntas por muitos anos. O afeto e o preconceito que experimentam são mostrados em cenas  expressivas, como, por exemplo, em uma sessão de cinema, na qual assistem a Calúnia, emocionam-se e, imediatamente, devem conter gestos de carinho face ao riso dos outros espectadores. A morte súbita de uma delas interrompe a vida partilhada. Edith (Vanessa Redgrave) se vê obrigada a sofrer silenciosamente a perda da companheira Abby (Marian Seldes). Nas cenas da hospitalização de Abby e da notícia de sua morte, o filme faz um contraponto entre o tratamento que enfermeiras e médico dão a uma mulher que perde seu marido e a essa que é “apenas” uma “amiga” da morta. O silêncio sobre a parceria amorosa prolonga-se para além da morte. Incompreendida pelos parentes de Abby, Edith vê ser arrancado de suas mãos (para ser herdado por um sobrinho distante e por sua ávida esposa) tudo o que as duas haviam construído juntas.

O segundo segmento enfoca os anos 70, época do ativismo feminista nos Estados Unidos. A mesma casa é partilhada por quatro jovens amigas lésbicas em conflito com o grupo feminista da faculdade do qual fazem parte. Algumas das fissuras internas do movimento de mulheres são apresentadas nessa história. Inicialmente, é mostrada a recusa das ativistas em incluir as lésbicas em suas discussões, com a afirmativa de que, “primeiro”, seria importante dar conta das lutas feministas para “depois” pensar sobre as reivindicações das mulheres lésbicas. As garotas se afastam, revoltadas. A seguir, a ação se volta para o interior do pequeno grupo homossexual e permite observar a rejeição que as amigas impõem a uma das companheiras da casa (Linda, interpretada por Michelle Williams) quando esta se apaixona por uma butch (Amy, interpretada por Chloë Sevigny). As garotas debocham do comportamento de Amy, fazem-na trocar seu terno e gravata por uma camisa feminina e despenteiam seu cabelo. Quando Amy decide ir embora, Linda pergunta: “Sabem por que vocês agiram assim? Porque não são capazes de aceitar alguém que não seja igual a vocês”. Ao final,
Linda assume publicamente seu relacionamento com Amy.

No último episódio, ambientado nos tempos atuais, a questão central é a da maternidade como desejo do casal de lésbicas (interpretado por Sharon Stone e Ellen DeGeneres). Nessa história, salientam-se as peripécias das duas mulheres para conseguir um doador de sêmen e, ao mesmo tempo, manter o filho como só delas. O episódio assume quase um tom de comédia, o que contrasta com o caráter dramático e tenso dos episódios anteriores. Risadas, música e manifestação pública de afeto sugerem que alguma coisa mudou e que, eventualmente, a afirmação dos direitos pode ser feita, agora, de forma menos penosa.


O filme foi lançado em VHS/DVD no Brasil e praticamente não entrou no circuito comercial, sendo exibido em festivais ou salas especiais. No entanto, pelo fato de trazer no elenco algumas atrizes famosas, é possível que sua plateia tenha se ampliado. São as vozes das mulheres lésbicas que se ouve nos três episódios, e o modo como são apresentadas suas histórias parece invocar a simpatia da plateia para com os seus dramas, conflitos e desejos.


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O filme "Desejo proibido",  será exibido nos 
dias 07/03 (quarta-feira, às 19h) e 08/03 (quinta-feira, às 12h30),
no Goiânia Cine Ouro (ingressos: R$1), pela Semira Mostra Mulheres no Cinema.


2 de mar de 2012

Filhas do vento – Mulheres tecendo afeto e memória na construção familiar





Edileuza Penha de Souza* (especialmente para o blog)

           No líquido do copo
entorno a sua fluida
lembrança.
Bebo aos goles
o seu doce caldo
armazenado e curtido
em minha memória
e, quando depois
me erro nos passos
inebriada dos meus enganos
toco o vazio de sua ausência
percebendo, então
que você me escorre dos sonhos
Tal qual a baba indomável
que da boca do bêbado sonolento
escapa.
                                                                                                FLUIDA LEMBRANÇA - Conceição Evaristo


Primeiro longa-metragem do gênero drama dirigido pelo cineasta Joel Zito Araújo, é também seu primeiro filme de ficção. A narrativa fílmica conta a história de vida de Cida (Ruth de Souza) e de sua irmã Ju (Léa Garcia) separadas por quase 45 anos. Elas, entretanto, não conseguem dissipar a mágoa provocada pelo incidente amoroso e familiar que marcou a juventude e a vida das duas. Com a morte do pai, Zé das Bicicletas (Milton Gonçalves), Cida retorna, acompanhada de sua filha Selminha (Maria Ceiça) e de sua sobrinha Dorinha (Danielle Ornelas), a sua cidade, local onde mães, irmãs e filhas se reencontram e vivem conflitos afetivos e sociais, separações e destinos diferentes na polarização entre vida urbana e interiorana.

Produção de Márcio Curi, música de Marcus Viana, direção de fotografia de Jacob Sarmento Solitrenick, direção de arte de Andréa Velloso e edição de Isabela Monteiro de Castro, o filme é resultado de trabalho de uma equipe de profissionais competentes, somando técnicas e representações ao tratar de forma poética de questões tão duras e reais. O filme marca um contexto de diversidade em que mulheres, negras ou não, estão inseridas; a narrativa possibilita discussões sobre um cinema que busca romper com os estereótipos e o racismo de uma “sociedade esteticamente regida por um paradigma branco” (Sodré, 2001, p. 235)1. A obra nos conduz em incursões sobre experiências de família, juventude, solidão, carreira profissional, inseguranças, aborto, amores, mágoas, memória e afeto.

O filme projeta um cinema capaz de exercer seu papel principal, de instrumento para elucidar a memória e narrativa das histórias de amor, paixão e desejos. As personagens femininas, todas mulheres negras, tecem uma romântica história de amor entre gerações, na qual irmãs, mães e filhas se reencontram, por meio do aprendizado do acolhimento, do perdão, do reconhecimento, da coletividade e do amor.


Mães, filhas e sobrinhas, as quatro mulheres são constituídas de uma fonte de energia. A espiritualidade de cada uma possibilita a circularidade. Ao reconhecerem que a união de suas forças resulta na coletividade, o elo familiar volta a se recompor. E nesse momento, a estrutura fílmica revela concepções de valores e linguagens cinematográficas moldados no comprometimento de um cinema que transforma brisas, ventanias e tempestades em imagens que tecem a identidade negra.

Selecionado para Première Mundial em Nova York, a convite do MoMA – Museu de Arte Moderna, junho de 2004, entre tantos outros festivais internacionais e nacionais2, Filhas do Vento foi o filme premiado do Festival de Gramado de 2004, quando recebeu cinco Kikitos. Apesar disso, não ficou em cartaz mais do que apenas algumas semanas, o que possibilitou a pouquíssimas pessoas assistir nas grandes telas a esse filme protagonizado por mulheres negras, trabalhadoras, lutadoras e sonhadoras.

Se o cinema interage com o emocional, o intelectual, o físico e o psíquico, proporcionando, individual e coletivamente, “estímulos da imaginação como um constante desafio para o intelecto e um cultivo do senso de apreciação” (Santos, 1988)3, Filhas do Vento fomenta no telespectador histórias de vida, relacionamentos amorosos e de família, existencialismo, trabalho, e o tempo que se dedica a cada uma dessas funções.

Acredito que as histórias narradas pelo cinema possibilitam a construção de novos olhares para as diversidades. Nesse sentido, o filme Filhas do Vento reanima o cinema nacional e os meios de comunicação com um sopro de combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação ao cumprir papel elementar a uma nova construção de imagens e representações das mulheres negras no cinema. Assim, se os ventos são vitais à dinâmica terrestre, o filme de Joel Zito Araújo consolida um movimento de luta e resistência que aviva outras estratégias para representar as mulheres negras nos meios de comunicação e na sociedade, e ainda, diria Fernando Pessoa, “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”.

Notas e referências
Texto original: “Mulheres Negras no Cinema Brasileiro – estratégias de afeto, amor e identidade” - Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder - Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008. Disponível em: <http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST69/Edileuza_Penha_de_Souza_69.pdf>

1 SODRÉ, Muniz. Reinventando a cultura: a comunicação e seus produtos. 4.ed. Petrópolis:  Vozes, 2001
2 Ver: <http://www.meucinemabrasileiro.com/filmes/filhas-do-vento/filhas-do-vento.asp>
3 SANTOS, Juana E. Os Nagô e a morte. Petrópolis, Vozes, 1988


*Edileuza Penha de Souza é doutoranda em Mídia e Educação na Universidade de Brasília (UnB), onde leciona as disciplinas: Pensamento Negro Contemporâneo; e Cinema Negro.


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O filme "Filhas do Vento",  será exibido nos 
dias 06/03 (terça-feira, às 19h) e 09/03 (sexta-feira, às 12h30),
no Goiânia Cine Ouro (ingressos: R$1), pela Semira Mostra Mulheres no Cinema.



1 de mar de 2012

Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado


Foto Jesus Carlos (Revista Caros Amigos)


O lugar social da mulher negra é uma das temáticas abordadas nesse documentário o do cineasta mineiro Joel Zito Araújo sobre o mundo do turismo sexual no Brasil

Fonte: O Povo Online

Menina de 13 anos levada pela mãe ao Instituto José Frota, em Fortaleza, após ser agredida por um cliente/explorador: a garota faz da BR-116 o ponto da própria exploração, na venda do corpo imaturo. Em Natal, uma jovem passeia de mãos dadas com um estrangeiro, enquanto conta para a câmera que, em breve, viajará para fora do País, mas com outro pretendente a marido. Em Berlim, ao som de Fascinação, bailarina “mulata” samba na ponta do pé, maiô fio-dental, para plateia de nativos germânicos. Todas são negras. O retrato é similar em boa parte das capitais do Nordeste ou com alguma ligação com a região. De tão comuns e banalizadas, chegam a ser vistas como passividade e até permissividade.

O documentário Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado, do cineasta mineiro Joel Zito Araújo, vem para lembrar que é com olhos de estranhamento que essas imagens precisam ser observadas. Isso sem julgamento. A alusão aos contos de fada não poderia ser mais apropriada. O longa nos dá uma significativa amostra dessa rede de sonhos, ilusões, exploração e terror, com alguns espasmos de final feliz, do turismo sexual brasileiro. Em Fortaleza, Natal, Recife e Salvador, Joel Zito entrevistou boa parte dos envolvidos na teia da prostituição: mulheres, homens e travestis que trabalham como garotos e garotas de programa, mas também taxistas e, principalmente, estrangeiros. Em Berlim e em Roma, o diretor também encontrou dançarinas de vários estados do Norte e Nordeste, empresários que costumam visitar o Brasil e casais formados por alemães e brasileiras.

Apesar de não ser o foco do documentário, a questão racial está no cerne da discussão. "Encontrei um dado que ajudou a guiar o documentário: 75% do objeto de desejo do turista estrangeiro são afrodescendentes. Obviamente, isso vem embutido, sobretudo do ponto de vista delas", conta o documentarista, em entrevista ao O POVO, por telefone. Se os estrangeiros dizem que as negras são mais simpáticas e ao mesmo tempo "quentes" ou soltas sexualmente, essas mulheres confirmam o estereótipo. "Isso é um dos poucos pontos que eleva a autoestima delas. Quanto mais negróides, mais elas serão vistas como feias e não desejáveis no Brasil". No olhar do estrangeiro, elas percebem que existe uma valorização de suas estéticas. Isso é visto com segurança por essas mulheres. Ao mesmo tempo, dizem não querer casar com um homem de sua cor de pele. "Para limpar o sangue", chega a afirmar uma das entrevistadas. A dúvida que fica é se essa lascividade não estaria mais perto de uma permissividade. Se, pela autoestima baixa, elas não permitiriam qualquer tipo de situação, mesmo que agressiva ou contra suas vontades.

No documentário, Joel Zito mostra relações que têm no centro a questão financeira e a carência afetiva. A lógica é completamente fora do amor romântico. Muitas delas dizem que não importa com quem possam casar. "Quanto mais o homem paga a gente, mais a gente se apaixona", conta num depoimento hilário, uma travesti entrevistada no documentário.

Como entrevistador, Joel Zito se destaca. É direto e incisivo, sem ser desrespeitoso. Tem sensibilidade e questiona no momento certo. "Algumas vezes, elas se entregaram demais, revelaram fatos muito íntimos e eu, por respeito, decidi não colocar. Já com os estrangeiros, expus realmente suas contradições", compara. Um desses homens, um italiano, condena a política de turismo sexual, embora confesse que seja um de seus usuários minutos depois.

O diretor optou por investir num tom nem sempre pesado. Os momentos mais leves estão na parte final, quando o diretor entrevista brasileiras casadas com alemães e apresenta os choques culturais da relação, inclusive de maneira divertida. "São poucas as histórias bem-sucedidas, mas elas existem. Uma jornalista me perguntou o porquê de o filme acabar com uma história feliz, de casamento. Ora, por que as nossas amigas de classe média podem se casar com estrangeiros e serem felizes e as meninas pobres não?".


Matéria original: “Notas sobreturismo sexual”, publicada em no site do Geledés – Instituto da Mulher Negra.

O documentário "Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado",  será exibido nos 
dias 06/03 (terça-feira, às 12h30) e 08/03 (quinta-feira, às 15h),
no Goiânia Cine Ouro (ingressos: R$1), pela Semira Mostra Mulheres no Cinema.



26 de fev de 2012

Histórias, cantigas e encantos do “Diário de Naná”

Ceiça Ferreira *

Mãe Gaiaku Luiza, Virgínia Rodrigues, Edith do Prato, Dalva do Samba, Mãe Filhinha. Essas mulheres, com suas vozes, histórias de vida, ensinamentos e experiências guiam a viagem do percussionista pernambucano, Naná Vasconcelos pelo recôncavo baiano, proposta do documentário “Diário de Naná”, que dirigido pelo cineasta Paschoal Samora acompanha essa busca da música do sagrado e do sagrado da música.


No começo do filme, com os meninos e meninas do projeto Bagunçaço, numa oficina com instrumentos confeccionados a partir de materiais reciclados, Naná afirma “o primeiro instrumento é a voz, e o melhor é o corpo”. É com o corpo que ele faz som com o caxixi, ouve e capta as sonoridades das ondas do mar, da feira, do trem, e principalmente, ouve histórias de outros corpos, que compartilham a palavra e toda a afetividade que ela carrega.


Nessa viagem, o filme vai mostrando as descobertas e encontros de Naná. Com o poeta baiano Antonio Vieira e o cordel “o resgate do berimbau”, do qual emerge a figura de Besouro Mangangá (nascido em Santo Amaro, foi um dos maiores capoeiristas da Bahia, herói admirado por sua valentia e citado em inúmeras canções nas rodas de capoeira), o qual Naná reverencia com o berimbau, e afirma: "Um dia Besouro voltará". Essa belíssima sequência me fez lembrar uma afirmação do professor Muniz Sodré sobre a capoeira, que diz “o ritmo do berimbau põe em jogo, integrados, corpo e alma do negro”.

O documentário também apresenta o encontro musical de Naná Vasconcelos com a cantora Virgínia Rodrigues, que imponente, canta para Ogum (orixá guerreiro, senhor do ferro e da metalurgia). Essa referência à religiosidade afro-brasileira, se junta às imagens de símbolos, elementos e objetos da feira de São Joaquim, onde Naná procura uma pavoa, presente que leva à Mãe Gaiaku Luiza, sacerdotisa do candomblé jeje, em Cachoeira.


Essa anciã que já havia aparecido cantando em sequências anteriores, agora conta um pouco de sua história de vida, a família-de-santo, os preconceitos enfrentados e as mudanças impostas à tradição; assim como Naná, também nos encantamos com a altivez e sabedoria de Gaiaku Luiza.

Acompanhamos Naná em armazéns à procura de um prato, não um qualquer, mas um que faça música. É um presente para Dona Edith do Prato, sambista de Santo Amaro, que ficou conhecida por fazer música com esse objeto doméstico. Com ela, Naná canta “o tombo do pau” e o “viola meu bem”, sambas tradicionais do recôncavo baiano.

Planos detalhe de uma outra mulher arrumando o pano na cabeça, e de suas mãos tocando um instrumento de madeira são o prelúdio do encontro de Naná Vasconcelos com Dalva do Samba. E eles literalmente caem no samba, dançam ao som de “Beiramar”, uma das diversas composições dessa sambista, que declara: “o samba é a vida, é aonde acaba todas as tristezas”.

De maneira irreverente, Dalva conta alguns aspectos de sua história. E até com o amargor do jiló e da vida ela consegue fazer samba. Revelando assim um importante valor de nossa identidade afro-brasileira, a ludicidade, que é a capacidade que homens e mulheres negras tem de, mesmos nas condições mais adversas, manter seu desejo e alegria de viver, sorrir, brincar, dançar.

Assim como o pé de jenipapo, que mesmo cortado, floresceu (segundo Dalva foi o samba que o trouxe de volta), também essas expressões culturais afro-brasileiras resistem, e se mantem vivas por que tem raízes, tem história, estão inseridas dentro dessa espiritualidade de matriz africana, que reconhece a sacralidade do corpo, que é vida, é documento, traz uma memória individual e coletiva, compartilhada pela palavra, pela música.

E é pedindo benção à Mãe Filhinha (outra sacerdotisa do candomblé), que Naná Vasconcelos parece ter chegado ao seu destino nessa viagem pelo recôncavo baiano. Guiado por vozes ancestrais, principalmente femininas ele desvela esse rico universo de poesia, ritmo e melodia, que constituem a musicalidade afro-brasileira.


Notas e Referências:
SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. 3.ed.





*Ceiça Ferreira é jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB), e desenvolve atividades com mídia, culturas negras e comunicação em movimentos sociais. 



O documentário "Diário de Naná",  será exibido 
nos dias 05/03 (segunda-feira, às 15h) e 07/03 (terça-feira, às 12h30),
no Goiânia Cine Ouro (ingressos: R$1), pela Semira Mostra Mulheres no Cinema.


25 de fev de 2012

Mulheres que cantam e encantam no "Diário de Naná"


Conheça um pouco da história de Virgínia Rodrigues, Gaiaku Luiza, Dona Edith do Prato, Dalva do Samba e Mãe Filhinha, mulheres que guiam a viagem do percussionista pernambucano, Naná Vasconcelos pela musicalidade do recôncavo baiano, no documentário "Diário de Naná", dirigido pelo cineasta Paschoal Samora.

Virgínia Rodrigues



Da infância pobre em Salvador ao posto de diva da música brasileira que alcançou mais reconhecimento no exterior do que em seu próprio país, a cantora baiana Virgínia Rodrigues percorreu um longo caminho.  




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Gaiaku Luiza



Considerada uma das mais importantes sacerdotisas do culto afro-religioso jeje-mahi do Brasil e possuidora de uma sabedoria inigualável. 







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Dona Edith do Prato
(Edith Oliveira Nogueira)


Considerada uma lenda viva do samba de roda e ficou conhecida no Brasil como tocadora de prato, é nas palavras do poeta Hermínio Bello de Carvalho, uma espécie de cartão postal sonoro da Bahia. 



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Dalva do Samba





Dalva Damiana de Freitas, nascida em 1927, é um ícone do samba de roda de Cachoeira. Ela trabalhava na extinta fábrica de charutos Suerdieck, onde, com suas companheiras, passou a organizar um grupo de samba de roda que existe há mais de 40 anos. Além de coordenar o Samba de Roda Suerdieck, Dona Dalva é integrante da Irmandade da Boa Morte. 



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Mãe Filhinha



Com 108 anos, "Mãe Filhinha" (Narcisa Cândida Conceição) é a mais antiga das irmãs da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira (BA). 







Foto: Adenor Gondim